José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai e ícone progressista mundial, faleceu nesta segunda-feira (12), aos 89 anos. O anúncio foi feito pelo Movimento de Participação Popular (MPP), legenda à qual Mujica era filiado.
A causa oficial da morte ainda não foi divulgada. Em abril de 2024, Mujica revelou em coletiva de imprensa ter sido diagnosticado com um tumor no esôfago. O ex-presidente também enfrentava uma doença autoimune que comprometia os rins. No domingo (11), o atual presidente do Uruguai, Yamandú Orsi — afilhado político de Mujica — já havia dito que o estado de saúde do ex-presidente era “crítico”.
Uma vida marcada pela humildade, resistência e gestos memoráveis
Pepe Mujica governou o Uruguai entre 2010 e 2015 e tornou-se uma figura admirada no cenário internacional por sua postura simples e princípios sólidos. Recusou o luxo do poder, preferindo viver em sua chácara nos arredores de Montevidéu, onde cultivava flores e legumes, acompanhado da esposa, a ex-senadora Lucía Topolansky, e da cadela de três patas, Manuela.
O presidente que recusou fortuna por um Fusca
Mujica tornou-se célebre também por seu inseparável Fusca azul-claro. Em 2014, recebeu propostas milionárias pelo carro — uma delas vinda de um xeique árabe —, além da oferta de dez caminhonetes do então embaixador do México. Ele rejeitou todas. Em 2023, recebeu o presidente Lula para um passeio no mesmo carro, já transformado em símbolo de sua humildade.
Rejeitou a residência presidencial e usava sandálias em solenidades
Durante seu mandato, recusou-se a viver na residência oficial da presidência, alegando que o conforto do palácio complicaria sua rotina. Também dispensou o uso de gravatas e chegou a comparecer a eventos formais de calças curtas e sandálias.
Sobrevivente da repressão: tortura, fuga e resistência
Antes de entrar para a política institucional, Mujica foi guerrilheiro tupamaro. Passou mais de uma década preso sob regime brutal. Relatos indicam que, em determinado momento, precisou beber sua própria urina para sobreviver à sede imposta pelos carcereiros. Em outro episódio, lutou durante meses para conseguir um penico rosa enviado por sua mãe — objeto que ele guardou com afeto e com o qual saiu da prisão.
Em 1971, participou da maior fuga da história carcerária uruguaia, quando 111 presos cavaram um túnel sob a penitenciária de Punta Carretas. Para disfarçar os ruídos da escavação, gritavam gols fictícios durante supostos jogos de futebol entre os detentos.
Trajetória de superação: vendedor de flores e sobrevivente de tiros
Órfão de pai desde os oito anos, Mujica começou a trabalhar ainda menino, vendendo flores para ajudar em casa. Na juventude, foi alvejado por tiros em ações militares, perdendo meio pulmão e o baço. Também sofreu graves sequelas físicas e psicológicas após anos de tortura na prisão.
O presidente que doava o salário e ouvia o povo
Durante o governo, Mujica doava cerca de 90% do seu salário para projetos sociais. Em uma ocasião, ao ser abordado por um homem pedindo dinheiro, respondeu com um gesto afetuoso e bem-humorado: “Moeda eu não tenho, mas não chore!”. O pedinte pediu que ele fosse “presidente para sempre”. Mujica sorriu e rebateu: “Você está louco!”.































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