Durante muitos anos, o Dia dos Pais era, para mim, uma espécie de sombra no calendário. Uma data que se aproximava sempre com uma pontada no peito e um silêncio meio amargo.
Eu nunca tive pai. Minha mãe foi mãe solteira — em uma época em que isso era quase uma sentença social. Meu genitor foi embora antes mesmo de eu nascer. Minha mãe, sozinha e com dores de parto, precisou caminhar a pé até a casa de uma família amiga, no bairro Três Vendas. Foram eles que a levaram ao hospital.
A primeira vez que vi o meu pai — ou melhor, o homem que biologicamente tem esse título — foi aos seis anos. Eu nem sabia o que era um pai. Lembro que ele passou a mão na minha cabeça. Aquele gesto seco e breve foi o único carinho que recebi dele.
Aos 16, num impulso de tentar entender quem eu era, fui ao seu encontro no Mato Grosso. Queria, talvez, resgatar algo que nunca existiu. Mas chegando lá, percebi o que já era verdade havia muito tempo: eu não tinha um pai. Ele era um estranho. E laços não se forjam à força.
Voltei pra casa mais maduro, e com um reconhecimento silencioso: minha mãe foi pai e mãe. Ela enfrentou o mundo com as armas que tinha. Ela cuidou de mim e da minha irmã com o que esteve ao seu alcance — e, muitas vezes, com o que não estava também.
Nas festinhas da escola, no primário, quando a turma fazia presentes para o Dia dos Pais, eu também fazia o meu. Mas não tinha a quem entregar. Então escolhia o tio Selvino ou o tio Emílio. Eram referências, eram carinho e presença quando o buraco da ausência apertava.
Mas o universo, que nunca deixa de nos surpreender, um dia me devolveu o que eu nunca tive — só que de outro jeito. No meu segundo casamento, fui abençoado com a chegada do Joaquim. E de repente, me vi pai.
Pai. Essa palavra que, durante tanto tempo, foi só um eco distante. Agora, ela me chamava com um choro pequeno e urgente.
Lembro como se fosse hoje. Maria ficou na recuperação do bloco cirúrgico, e eu subi com o Joaquim ao quarto. Nós dois. Sozinhos. Ele, enrolado num paninho azul. Eu, com as mãos trêmulas. Olhei aquele ser tão pequeno e chorei. Liguei pra dinda e perguntei: “O que eu faço agora?”
E foi assim que aprendi a ser pai. Não nos livros. Não pelo exemplo. Mas na prática. Nas noites em claro andando com ele nos braços pela casa, tentando acalmá-lo. Nas madrugadas frias em que saí com ele de carro pela cidade, só pra ver se o balanço o fazia dormir.
Aprendi a trocar fralda, dar banho, preparar mamadeira, levar na escola, ouvir seus medos, brincar no chão, contar histórias.
Hoje, vejo o Joaquim crescer — esperto, saudável, cheio de energia e perguntas. Ele me chama de pai com a naturalidade que eu nunca pude ter. E talvez por isso eu me esforce tanto, todos os dias, para ser um pai de verdade.
Eu, que não tive um, quero ser tudo o que faltou.
E nesse Dia dos Pais, eu lembro da minha mãe. Que foi gigante. Que foi fortaleza. Que foi luz quando tudo era escuro.
E penso também em todos que, como eu, cresceram sem pai. Que fizeram o presente na escola e não tinham a quem entregar. Que sentiram o vazio no peito, mas seguiram em frente.
A todos vocês, deixo um abraço apertado e verdadeiro. A paternidade não começa no sangue, nem termina no abandono. Ela pode surgir no inesperado. No choro da madrugada. No colo oferecido. No amor que se escolhe dar, dia após dia.
Feliz Dia dos Pais. A todos os que são — e aos que decidiram ser.
Leandro Vesoloski
Jornalista – MTB 17921/RS






























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