A recente decretação de prisão domiciliar contra Jair Bolsonaro, no último dia 4 de agosto, acentua uma tendência que se repete na história recente do Brasil: a punição judicial ou política de quem ocupa a Presidência da República. Desde a redemocratização, quase todos os presidentes eleitos diretamente pelo voto popular foram alvos de prisão, condenação ou impeachment. O único a encerrar seus mandatos sem qualquer mácula judicial ou afastamento político foi Fernando Henrique Cardoso.
Fernando Collor de Mello foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto após o regime militar. Renunciou em 1992 para escapar do impeachment, mas teve seus direitos políticos suspensos. Anos depois, foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Lava Jato, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 2002 e reeleito em 2006, também foi preso em 2018 após ser condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Cumpriu pena por 580 dias. As condenações foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, o que permitiu seu retorno ao poder em 2023. Já Jair Bolsonaro, eleito em 2018, teve prisão domiciliar decretada agora em 2025, no contexto das investigações sobre tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Ele já havia sido declarado inelegível pelo TSE dois anos antes.
Dilma Rousseff, primeira mulher a presidir o Brasil, não foi presa, mas sofreu impeachment em 2016, acusada de manobras fiscais para maquiar o orçamento público. Afastada do cargo, teve como sucessor seu vice-presidente, Michel Temer, que assumiu a presidência e também acabou preso preventivamente em 2019, acusado de corrupção em contratos da Eletronuclear. Temer nega as acusações e responde em liberdade.
Diante dessa sucessão de quedas e prisões, Fernando Henrique Cardoso permanece como exceção. Comandou o país entre 1995 e 2002, foi eleito e reeleito democraticamente, e deixou o cargo sem qualquer processo criminal, escândalo pessoal ou tentativa de impeachment. Embora tenha enfrentado críticas políticas e conduzido reformas impopulares, como as privatizações e a emenda da reeleição, FHC nunca foi alvo de investigação judicial ou ação penal.
O histórico mostra que, no Brasil pós-ditadura, o cargo mais alto da República se tornou um palco de ascensão e queda. A maioria dos que chegaram à presidência pelo voto acabaram, mais cedo ou mais tarde, enfrentando tribunais ou sendo retirados do cargo. FHC permanece como uma exceção solitária — o único a atravessar o poder sem algemas nem cassações.































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