Um dia eu vou partir.
Mas calma — não precisa acender velas nem colocar trilha sonora de drama francês. Ainda estou aqui. Só que às vezes, nas tardes em que o sol bate torto na janela e a vida desacelera, esse pensamento escapa de fininho, como um cachorro velho que conhece o caminho de casa.
Não é um anúncio, tampouco uma promessa. É mais um lembrete que sussurra entre uma xícara de café e o barulho dos ponteiros insistentes. Um dia eu vou partir. E antes que pensem em lágrimas ou testamentos, digo que partir também é verbo de aventura. Quem sabe eu vá como quem vai ali na esquina buscar pão, ou talvez como quem sobe num trem sem destino e confia no balanço dos trilhos.
Porque a verdade é que ninguém fica para sempre. Nem os amores, nem os cheiros da infância, nem aquele senhor da banca que sabia o nome de todo mundo. Tudo parte, cedo ou tarde, com mais ou menos despedida.
E ainda assim, vivemos como se não fôssemos partir nunca. Discutimos por coisas pequenas, deixamos palavras bonitas para depois, adiamos o perdão como se o tempo fosse nosso criado. Mas ele, o tempo, é sócio da partida. Silencioso e pontual, não atrasa.
Um dia eu vou partir. E gostaria que, quando esse dia chegar, eu tenha plantado mais sorrisos do que mágoas. Que as pessoas se lembrem da minha risada desajeitada, dos cafés improvisados, das conversas que aqueceram corações em dias frios.
Quero ter dito tudo. Quero ter calado quando era preciso. Quero ter amado com os dois pés na beira do abismo, mesmo que isso me fizesse cair às vezes.
Porque partir não é fim. É passagem. E o que fica mesmo é o que a gente fez entre uma chegada e outra.
Enquanto esse dia não chega, eu vivo. Com medo, com coragem, com dúvidas e esperanças.
E você?
O que faria de diferente se soubesse que um dia, inevitavelmente, também vai partir?
Talvez valha a pena começar hoje.





























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