Por anos, o Castelinho permaneceu fechado no coração de Erechim. O tempo avançou sobre a madeira, a umidade encontrou caminhos pelas paredes e partes da estrutura começaram a revelar as marcas de uma deterioração que já não podia ser ignorada. Havia pisos comprometidos, infiltrações e sinais de desgaste. Para quem passava pela rua, o prédio continuava sendo um dos principais símbolos da cidade. Para quem entrou nele e viu de perto sua condição, a percepção era outra: havia um patrimônio histórico correndo contra o tempo.

Foi nesse cenário que o Ministério Público de Erechim passou a olhar com maior atenção para o prédio. Ao assumir as atribuições junto à Primeira Promotoria de Justiça Especializada, o promotor de Justiça Fabrício Gustavo Allegretti encontrou uma investigação que já tratava da situação do Castelinho e respostas que ainda eram aguardadas do município. A decisão foi sair dos documentos e conhecer de perto a realidade.
Ao entrar no prédio acompanhado de equipe técnica, Allegretti encontrou uma situação que, segundo ele, exigia uma resposta. Em determinados pontos, o piso já apresentava risco para quem circulasse pelo local. Fotografias, registros e levantamentos passaram a documentar as condições do patrimônio.
A alternativa judicial existia. Uma ação poderia responsabilizar os envolvidos e buscar uma solução, mas havia um problema que nenhum processo poderia ignorar: o tempo.
“O Castelinho não podia esperar mais”, resume o promotor.

A escolha foi buscar uma solução extrajudicial. Ministério Público e município passaram a trabalhar na construção de uma alternativa que permitisse viabilizar a restauração. O caminho encontrado foi a apresentação de um projeto ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados, o FRBL, mecanismo que permite transformar recursos obtidos pelo Ministério Público em ações de reparação de danos e preservação de bens de interesse coletivo.
O Castelinho, porém, não era apenas mais um prédio antigo que precisava de manutenção.
Para o historiador Henrique Trizotto, doutor em História e chefe do Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font, o Castelinho representa algo muito maior.
“O Castelinho é o símbolo maior do município”, afirma.
A importância está além da fachada ou da arquitetura. O prédio atravessou momentos fundamentais da formação de Erechim. Está relacionado à história da imigração, ao planejamento urbano, à constituição do município, à organização dos lotes e às relações políticas e sociais que ajudaram a formar a cidade.
O Castelinho também sobreviveu às transformações do próprio espaço urbano. Enquanto o entorno mudou, ele permaneceu como uma referência visual e afetiva. Sua arquitetura passou a ser reproduzida em estabelecimentos, monumentos e símbolos locais.
“Se nós perdêssemos o Castelinho, nós estaríamos perdendo a nossa identidade”, resume Trizotto.

É justamente essa dimensão que torna a história da restauração maior do que a recuperação de uma construção centenária. O que está em jogo é a permanência de uma referência através da qual gerações conseguem reconhecer parte da trajetória de Erechim.
Mas o Castelinho já estava fragilizado antes que a natureza impusesse um novo capítulo à história.
A arquiteta e urbanista, mestre em conservação e restauro, responsável técnica pelo projeto e fiscalização da obra de restauro, Ariane Pedrotti de Ávila Dias, explica que o prédio estava fechado havia 11 anos. Nesse período, problemas relacionados à infiltração, à umidade e à deterioração da madeira já haviam se acumulado.
“Ele ficou à mercê do tempo”, define.

O projeto de recuperação já vinha sendo buscado antes do desastre climático. O cenário, entretanto, mudaria drasticamente em 23 de novembro de 2025.
Naquele dia, uma chuva de granizo atingiu Erechim com grande intensidade. O Castelinho estava entre os imóveis atingidos. As telhas do telhado foram quebradas e elementos da fachada também sofreram danos. O problema não terminava na cobertura.
Com as telhas rompidas, a água passou a alcançar áreas que antes não apresentavam infiltração. O assoalho de madeira, inclusive em trechos que ainda estavam preservados, acabou sendo atingido. O que antes era uma deterioração que precisava ser enfrentada tornou-se uma emergência.
Para Allegretti, naquele momento, a situação chegou ao limite. “Era praticamente tudo ou nada depois da chuva de granizo.”
A partir dali, a mobilização ganhou caráter ainda mais urgente. Ministério Público, município e diferentes setores da administração passaram a trabalhar para viabilizar os recursos necessários à intervenção. O FRBL destinou cerca de R$ 6,5 milhões para a restauração.
O procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Sul, Alexandre Sikinowski Saltz, destacou, durante o ato de formalização do convênio, a importância histórica do prédio e o papel do fundo na viabilização da obra. Em declaração concedida à imprensa, afirmou que o FRBL permite “devolver à sociedade recursos que têm origem na própria comunidade, transformando-os em benefícios concretos”.

Foto Milena Mezzalira/ Comunicação PME/Arquivo
O recurso, nesse caso, não representa apenas uma obra. Representa uma tentativa de impedir que um dano climático acelerasse a perda de um patrimônio que já vinha lutando contra o tempo.
A restauração, entretanto, não significa simplesmente retirar o que está velho e colocar material novo.
Cada pedaço de madeira precisa ser analisado. Onde há possibilidade de recuperação, o material é tratado e preservado. Onde o comprometimento impede a recuperação, a substituição é feita de acordo com a função daquela peça.
Com as telhas, o cuidado segue a mesma lógica. A intenção é substituir as peças danificadas por telhas do mesmo tipo utilizado na construção. Parte do material que aparentemente poderia ser reaproveitado também precisou ser descartada depois que fissuras provocadas pelo granizo foram identificadas.
A técnica de restauração exige, portanto, mais do que dinheiro e materiais. Exige conhecimento.
O Castelinho foi construído utilizando técnicas tradicionais de trabalho com a madeira, incluindo encaixes e entalhes. Para Ariane, preservar esse método é tão importante quanto preservar a própria madeira.
“A gente não tá falando só da matéria, só daquele pedaço de madeira.”
Há um conhecimento acumulado na maneira como cada peça foi trabalhada, encaixada e sustentada. E esse conhecimento precisa continuar existindo para que a restauração seja fiel à história do prédio.
É por isso que profissionais mais experientes também passam seus conhecimentos para uma nova geração de trabalhadores. A preservação, nesse sentido, deixa de ser apenas física. Ela também passa pela transmissão de um saber fazer.
“É uma questão de respeito com a nossa história, manter a estrutura como ela foi feita”, afirma Ariane.
E há outro cuidado: restaurar o Castelinho não significa necessariamente tentar voltar o prédio a um único momento do passado.
Em mais de um século, a construção passou por modificações. Houve acréscimos, adaptações e diferentes fases de ocupação. Cada uma delas também passou a fazer parte da história do imóvel.
Preservar, portanto, não é apagar as marcas do tempo. É compreender quais marcas contam a história e quais representam apenas deterioração.
A intervenção também revelou que parte significativa da estrutura ainda pode ser preservada. A madeira saudável permanece. Peças comprometidas são analisadas individualmente e substituídas quando necessário. O objetivo é recuperar o que pode ser recuperado, sem transformar restauração em reconstrução indiscriminada.
Esse cuidado é especialmente importante em uma construção com mais de um século de existência. A própria história do Castelinho está registrada nas mudanças que o prédio sofreu ao longo do tempo.
O promotor Fabrício Allegretti vê no prédio uma espécie de testemunha material da formação de Erechim. O Castelinho está ligado à história dos primeiros processos de ocupação, à organização da cidade e às relações que ajudaram a construir o município. Para ele, perder o prédio significaria mais do que perder uma construção. Significaria permitir que uma parte da memória da cidade sobrevivesse apenas como representação.
O Castelinho está presente na bandeira e no brasão de Erechim. Se desaparecesse fisicamente, futuras gerações poderiam conhecê-lo somente por meio desses símbolos, fotografias e registros históricos.
“Preservar o Castelinho é preservar a nossa história, a nossa memória.”
A frase sintetiza o desafio colocado diante da cidade.
O granizo não criou a história de deterioração do Castelinho. Mas revelou, de forma brutal, o quanto o patrimônio estava vulnerável. A chuva transformou uma preocupação antiga em uma emergência concreta. E a resposta veio antes que a sucessão de danos pudesse transformar a deterioração em perda definitiva.
Agora, a restauração tenta fazer algo mais complexo do que reconstruir um telhado ou substituir um assoalho. Tenta garantir que aquilo que resistiu a mais de um século de transformações continue existindo quando as pessoas que hoje contam sua história já não estiverem aqui. Porque o Castelinho não é apenas uma construção que permanece no centro de Erechim. É uma construção que ajuda Erechim a lembrar quem foi, compreender como chegou até aqui e decidir o que pretende deixar para quem ainda virá.
E, depois de 11 anos fechado, de uma longa deterioração e de uma chuva de granizo que quase transformou risco em perda, a história do Castelinho ganhou uma nova chance.
Desta vez, não apenas de sobreviver ao tempo.
Mas de continuar contando a história de quem passou por ele — e de quem ainda vai chegar.
























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