Há coisas que deveriam estar acima da disputa política. A fé é uma delas. Nossa Senhora Aparecida não pertence a partido, candidato, governo ou ideologia. Ela pertence à devoção de milhões de brasileiros que, há gerações, entram em uma igreja, acendem uma vela, fazem uma oração e pedem proteção para a família. Por isso, quando uma imagem tão querida pela comunidade católica é colocada no centro de uma guerra eleitoral, alguma coisa está profundamente errada. Não importa de que lado venha a provocação. Transformar a devoção popular em arma política é ultrapassar uma linha que não deveria ser ultrapassada.
O episódio envolvendo a suposta retirada do título de Padroeira do Brasil mostra o tamanho do problema. A informação que circulou nas redes foi considerada falsa pelo ministro André Mendonça, do TSE, que determinou a retirada de publicações associando Flávio Bolsonaro ou sua família a essa intenção. Depois, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou essa decisão em relação a uma publicação específica; posteriormente, Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu a ordem do TSE. O caso agora envolve também uma discussão institucional entre STF e TSE.
Mas existe uma discussão ainda maior por trás de toda essa confusão: por que a religião precisa ser puxada para dentro da briga eleitoral? Por que milhões de católicos precisam ser tratados como um grande curral eleitoral, uma massa pronta para ser mobilizada pelo medo, pela indignação ou pela defesa de um símbolo sagrado? Isso é desrespeitoso. E vale para qualquer lado. Não se pode usar Nossa Senhora para atacar um adversário, assim como não se pode usar a fé para blindar um candidato de críticas. Católico não é eleitor automático de ninguém. Evangélico também não. Judeu, espírita, ateu ou qualquer outra pessoa não deveria ser reduzida à sua crença na hora de decidir seu voto.
E há uma coisa que precisa ser dita com todas as letras: religião não é ferramenta de campanha. Comunidade religiosa não é exército eleitoral. Padre, pastor, bispo, líder comunitário ou qualquer autoridade espiritual não deveria ser tratado como cabo eleitoral. E o fiel não pode ser tratado como massa de manobra. Quando um político descobre que mencionar uma santa pode gerar medo, revolta ou engajamento, a tentação de explorar esse sentimento é enorme. Mas é justamente aí que precisamos ter discernimento.
Nossa Senhora Aparecida não precisa de candidato para defendê-la. A fé católica não precisa de palanque. E o povo brasileiro não precisa que políticos transformem aquilo que é sagrado para milhões de pessoas em combustível para uma guerra de narrativas.
A política já divide famílias demais. Não precisamos permitir que ela entre também no altar.
Critique candidato. Critique partido. Critique governo. Critique oposição. Fiscalize, questione, cobre, investigue. Mas deixem a fé fora da disputa pelo poder.
Porque quando a política começa a usar Deus, Nossa Senhora ou qualquer outra expressão religiosa como instrumento para conquistar votos, quem perde não é um partido.
Quem perde é a própria fé — transformada em cabo eleitoral de uma eleição que deveria ser decidida pela consciência de cada cidadão.
Leandro Vesoloski
Jornalista -MTB 17921

























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